julho 23rd, 2010 by cochise
Uma pequena salada essa do título. Mas uma salada saborosa.
Hoje, na lista de discussão dos blogs de RPG surgiu a questão dos estupros no RPG. Muita gente tem opinião, inclusive eu e o Mr. POP sugeriu um quase meme sobre o assunto. Pois bem, aqui estamos.
Para começo de conversa, o RPG banaliza a violência física dentro dos limites da banalização. Nós temos assassinatos travestidos de justiça, nós temos execuções sumárias, até um pouco de tortura, mas nada realmente chocante ou violento. Nós sistematicamente e inconsceintemente respeitamos os tabus da sociedade.
Por exemplo: No livro do creed (credo, equivalente a tradição em Vampiro) wayward (guardadores do caminho. Uma referência direta aos cavaleiros templários e hospitalários) de Hunter the Reckoning há uma adorável parte em que descreve como realizar uma tortura. algo como, amarre a criatura, martele a unha do polegar, ela vai se quebrar em pedaços. Martele de novo. Os pedaços vão entrar na carne. Peque uma pinça e comece a tirar os pedaços. Só então faça as perguntas. No glossário de Destiny’s Price há a descrição de um golpe que consiste em colocar a boca da pessoa aberta no mio fio e chutar a nuca dela.
Isso são coisas um pouco acima (ou abaixo) dos nossos tabus. Tanto que estes dois livros foram lançados pelo selo editorial Black Dog, voltado para leitores adultos. Isso é violência de verdade. O máximo que fazemos é degolar uns monstrinhos de vez em quando. Quando são inteligentes a gente faz o favor de declarar que els são menos que humanos através do sistema de tendências.
A grande verdade é que todos, exceto os psicopatas, possuimos uma coisa chamada empatia, que faz com que nos alegremos com a alegria alheia e nos compadeçamos com a dor alheia. Para conseguirmos causar dor impunemente nós despimos o outro de humanidade, porque se ele não é nosso semelhante, nós não somos empatas com ele.
Pegue os campos de concentração nazistas ou stalinistas. É um exercício diário de deshumanização do outro, porque se considerarmos o outro como humano, falta coragem. Neste sentido, no RPG nós brincamos dentro do cercadinho dos tabus socias.
O estupro está do lado de lá do tabu, e a maioria das pessoas só o aceita na mesa de jogo como estratégia de deshumanização do inimigo. Não há nada de errado nisso.
Há algo errado nisso? NÃO. Não há nada de errado nisso. Também não há nada certo. Ninguém é obrigado a viver dentro dos limites do tabu e muito menos obrigado a quebrá-los.
Neste ponto entra o contrato social de Jean-Jaques Rousseau, um otimista enojante que não faz idéia de como o mundo funciona. O contrato social de Rousseau é um contrato feito entre iguais. Um pacto de associação, e não de submissão. Vá fazer um destes com o seu chefe ou com o juiz e depois me conta o resultado.
No entanto, no mundo do RPG estamos falando de amigos que se reúnem em atividade lúdica. Neste contexto o contrato social pode funcionar. Os jogadores, livres decidem quem será o narrador e este, baseado na igualdade conduz uma história equilibrada, dentro dos limites que os participantes consideram adequados.
Costuma funcionar com jogadores adultos. Mentalmente adultos, não fisicamente. Neste ponto entra Fouculat.
De acordo com Fouculat o poder não é algo existente, mas algo que só existem em práticas e relações. O poder seria um ente abstrato que só existe concretamente, quando exercido.
Freud afirma que o sonho é um ambiente sem consequências onde o inconsciente aproveita para satisfazer seus desejos reprimidos. Pois bem. Para mim, depois de alguma observação empírica uma sessão de RPG também é um ambiente onde pessoas descarregam desejos reprimidos.
E muitas vezes estes desejos estão relacionados aos tabus sociais e muitas vezes eles aproveitam para quebrar esses tabus no jogo.
E muitas vezes estes desejos reprimidos estão associados à quanto poder a pessoa exerce no dia a dia, numa perspectiva fouculiana. Isso tem a ver com os populares e excluídos da escola, tem a ver com o fora na balada e tem a ver com a bronca do tio evangélico por jogar RPG.
Nesse ponto surge o primeiro problema e a primeira coisa errada nessa discussão toda. O jogador ou mestre querer descontar suas frustrações pessoais nos jogadores, quebrando os tabus que eles podem não estar dispostos a quebrar.
Já tive um jogo em que dois jogadores foram forçados a se estuprar mutuamente. Tudo aconteceu dentro do contrato social do grupo. Ninguém saiu chateado, ofendido, etc.
Os problemas só começam quando alguém, por algum motivo pessoal sente necessidade de exercer poder sobre o resto do grupo ou sobre uma pessoa em específico. Para fazer isso ela naturalmente vai quebrar o contrato social do grupo, já que qualquer coisa dentro dele não é poder.
Pelo seu caráter irreal o RPG é muito visado como válvula de escape, mas como é uma atividade em grupo é preciso “resistir às tentações”. O RPG não é isento de consequências como o sonho. Existe uma parte real. A sessão, os amigos em roda. Isso é real. Por causa disso é preciso se esforçar para manter o jogo dentro do contrato social, seja ele qual for.
Em resumo:
Existe muita gente imatura que quer descontar suas frustrações do dia a dia nos colegas de jogo e isso é uma bruta sacanagem.
Por outro lado, quebrar tabus sociais só é sacanagem se for uma infração ao contrato social do grupo. Se ele estiver disposto a esse tipo de jogo, sem neuras.