January 9th, 2009 by Cochise César
O Contrato é a coisa mais antiga que temos e ele vai se esvaindo dia a dia. O Lorde protege os camponeses e os camponeses trabalham para os Lordes. Uma troca justa. Agora, essas cidades simplesmente dizem que não precisam de proteção e que a única coisa que os lordes fazem é explorá-las. Elas deveriam ser varridas do mapa. Mas agora esse usurpador é rei e as defende.
Mas é por causa da sua coroação que estou aqui.Todos ficaram sabendo da criatura horrenda que surgiu para nos mostrar que aquilo era uma abominação. E se coisas como aquela podem existir, os boatos que os lenhadores espalham podem ser verdade.
Eles estavam pedindo que algum lorde entrasse na floresta para caçar esses vultos há seis meses… Mas quem acreditaria nas maluquices que eles contavam? Mesmo quando Marv e Jackson desapareceram há três semanas nós cavalgamos procurando por ladrões, não por aberrações.
Cá estou eu então, sem armadura ou cavalo. Sem trompa ou arco. Isso é uma caçada, como tantas outras que empreendi nessa floresta, mas eu sou a presa. Por baixo dos andrajos que me coçam horrivelmente está a minha espada.
Essa floresta sempre foi nossa. A cada estação a agraciamos com o culto e o sacrifício, como diz a Língua. Ela não pode se rebelar, ou pior, nos ser roubada como as cidades foram.
Por isso não sairei daqui até achar esses monstros sejam o que forem e mostrar para eles que a floresta é nossa.
Existe alguma coisa errada aqui. Só existe uma coisa que pode gerar um silêncio desses no coração de uma floresta. Nem mesmo as folhas farfalham ao vento. alguma coisa morreu aqui. De um jeito errado. A terra foi regada com dor e sangue dos agonizantes. Isso é uma heresia sem limites. Preciso de freixo e carvalho.
…
Há alguém aqui. Um vulto silencioso o bastante para me atacar de surpresa. Quis que eu o visse.
Ou é uma armadilha ou uma ameaça.
E o pior. É um guarda desse lugar profano. Que assim que eu começar a purificação vai me atacar pelas costas. Sigo o mais cautelosamente possível na direção oposta a onde vi o vulto. Logo o vejo passar a minha frente. Sim. Ele quer me afastar daqui. Minhas mãos começam a suar. Já tenho certeza há alguns minutos de que essa coisa não é humana e sei que é um herege odioso. Contenho a vontade de desembainhar a espada e entrar logo em combate. Tenho que descobrir o que ele está escondendo aqui.
A medida que avanço o cheiro de podridão começa a se tornar mais penetrante. Não apenas morreram coisas do modo errado, como continuam morrendo.
Ali está ele. Parado nas sombras. Parece que aqui é o mais perto que chego sem o enfrentar. Desembainho a espada e penso no que deve ter acontecido com Marv e Jackson para ganhar força em minha investida. Eu protejo essas pessoas. Você as mata.
A criatura de pesadelo tinha a pele parecida com casca de árvore. E era pelo menos quarenta centímetro maior que eu. Desarmada, mas cada braço tinha pelo menos a grossura de um torso de homem. Ao atingir seu braço com a minha pesada espada, por sorte não ficou presa na pele dura dessa coisa. Seu sangue era espesso e transparente. Ela não devia estar esperando um ataque, porque demorou ainda alguns instantes para reagir, mas quando o fez foi com tal rapidez que não sei bem onde ela me atingiu. Estava caído ao chão flutuando num mar de dor. Cada partícula desse mar fedia a carne em decomposição.
Que os espíritos da terra me guiem,
E que eu nunca os destrate.
Que a luz do sol me fortaleça,
E que eu nunca a renegue.
Que a esposa seja poder e fertilidade,
E que eu nunca a maltrate.
Que o filho seja força e juventude,
E que eu nunca o castre.
Que a filha seja livre e exuberante,
E que eu nunca a encarcere.
Que eu seja poder e sabedoria,
E meu sangue nunca me falhe.
Quando terminei a oração já podia ver novamente e a dor tinha se reduzido a algo que podia suportar. Tinha sido uma pancada na cabeça. Minha orelha esquerda devia ter se reduzido a um amontoado de carne amassada. Estava em meio a um monte de carniça apodrecendo. Não havia vermes, insetos ou outras coisas. Apenas cadáveres de animais e o que havia restado de Marv e Jackson. Em torno, enfiados pela metade na terra negra estavam as crianças dessas criaturas. Tinham pouco mais de um metro as maiores enquanto as menores tinham não mais que trinta centímetros. Eram plantas que estavam nos usando como adubo. Plantas que andavam. Que nos viam como um pedaço de comida. Pelo menos pensavam que eu estava morto. Seria possível fugir a noite, se dormissem. E porque não dormiriam, se as plantas amam o sol?
Que meu sangue não me falhe e consiga suportar as longas horas até o por do sol nessa pilha de imundice. Que nosso furor não seja pequeno e essas aberrações paguem cada morte.
Assim que voltasse iria até seu pai, senhor do condado de Maern iriam organizar o extermínio desses seres. E contar ao sacerdote a razão da proibição de se regar o solo das florestas com o sangue dos combates. Plantar uma má semente gera uma má árvore. Nas reciprocidades da Língua é esse o fruto de plantar morte no solo da vida.
E os hereges que moram nas cidades desdenham da Língua com sua fé baseada na opressão da família pelo patriarca e no castigo do corpo para alcançar graças.
Tem que ter sido um desses infiéis que começou tudo matando algum ladrão dentro da floresta e desrespeitando o tabu. Estúpidos.
Os monstrinhos tinham parado de se mover e fazer estalos estranhos. O sol se pôs a pelo menos uma hora. Era agora. Levantei silenciosamente e m esgueirei para fora. Não me atrevi a acender uma tocha durante nenhum momento do caminho. Durante a longa e angustiante viagem pela floresta sombria ninguém, me incomodou, mas tampouco ouvi o piar das corujas ou o uivar dos lobos. Ou essas aberrações estavam dizimando os animais da floresta para de alimentar ou eles estavam tão horrorizados quanto eu. Em dois dias no máximo iríamos com tochas de freixo e carvalho purificar aquele lugar. E se as aberrações que oram geradas não caírem diante da fumaça purificadora, cairiam debaixo de machados. E esses malditos urbanos infiéis seriam avisados pela última vez sobre obedecerem as leis.O Contrato é a coisa mais antiga que temos e ele vai se esvaindo dia a dia. O Lorde protege os camponeses e os camponeses trabalham para os Lordes. Uma troca justa. Agora, essas cidades simplesmente dizem que não precisam de proteção e que a única coisa que os lordes fazem é explorá-las. Elas deveriam ser varridas do mapa. Mas agora esse usurpador é rei e as defende.
Mas é por causa da sua coroação que estou aqui.Todos ficaram sabendo da criatura horrenda que surgiu para nos mostrar que aquilo era uma abominação. E se coisas como aquela podem existir, os boatos que os lenhadores espalham podem ser verdade.
Eles estavam pedindo que algum lorde entrasse na floresta para caçar esses vultos há seis meses… Mas quem acreditaria nas maluquices que eles contavam? Mesmo quando Marv e Jackson desapareceram há três semanas nós cavalgamos procurando por ladrões, não por aberrações.
Cá estou eu então, sem armadura ou cavalo. Sem trompa ou arco. Isso é uma caçada, como tantas outras que empreendi nessa floresta, mas eu sou a presa. Por baixo dos andrajos que me coçam horrivelmente está a minha espada.
Essa floresta sempre foi nossa. A cada estação a agraciamos com o culto e o sacrifício, como diz a Língua. Ela não pode se rebelar, ou pior, nos ser roubada como as cidades foram.
Por isso não sairei daqui até achar esses monstros sejam o que forem e mostrar para eles que a floresta é nossa.
Existe alguma coisa errada aqui. Só existe uma coisa que pode gerar um silêncio desses no coração de uma floresta. Nem mesmo as folhas farfalham ao vento. alguma coisa morreu aqui. De um jeito errado. A terra foi regada com dor e sangue dos agonizantes. Isso é uma heresia sem limites. Preciso de freixo e carvalho.
…
Há alguém aqui. Um vulto silencioso o bastante para me atacar de surpresa. Quis que eu o visse.
Ou é uma armadilha ou uma ameaça.
E o pior. É um guarda desse lugar profano. Que assim que eu começar a purificação vai me atacar pelas costas. Sigo o mais cautelosamente possível na direção oposta a onde vi o vulto. Logo o vejo passar a minha frente. Sim. Ele quer me afastar daqui. Minhas mãos começam a suar. Já tenho certeza há alguns minutos de que essa coisa não é humana e sei que é um herege odioso. Contenho a vontade de desembainhar a espada e entrar logo em combate. Tenho que descobrir o que ele está escondendo aqui.
A medida que avanço o cheiro de podridão começa a se tornar mais penetrante. Não apenas morreram coisas do modo errado, como continuam morrendo.
Ali está ele. Parado nas sombras. Parece que aqui é o mais perto que chego sem o enfrentar. Desembainho a espada e penso no que deve ter acontecido com Marv e Jackson para ganhar força em minha investida. Eu protejo essas pessoas. Você as mata.
A criatura de pesadelo tinha a pele parecida com casca de árvore. E era pelo menos quarenta centímetro maior que eu. Desarmada, mas cada braço tinha pelo menos a grossura de um torso de homem. Ao atingir seu braço com a minha pesada espada, por sorte não ficou presa na pele dura dessa coisa. Seu sangue era espesso e transparente. Ela não devia estar esperando um ataque, porque demorou ainda alguns instantes para reagir, mas quando o fez foi com tal rapidez que não sei bem onde ela me atingiu. Estava caído ao chão flutuando num mar de dor. Cada partícula desse mar fedia a carne em decomposição.
Que os espíritos da terra me guiem,
E que eu nunca os destrate.
Que a luz do sol me fortaleça,
E que eu nunca a renegue.
Que a esposa seja poder e fertilidade,
E que eu nunca a maltrate.
Que o filho seja força e juventude,
E que eu nunca o castre.
Que a filha seja livre e exuberante,
E que eu nunca a encarcere.
Que eu seja poder e sabedoria,
E meu sangue nunca me falhe.
Quando terminei a oração já podia ver novamente e a dor tinha se reduzido a algo que podia suportar. Tinha sido uma pancada na cabeça. Minha orelha esquerda devia ter se reduzido a um amontoado de carne amassada. Estava em meio a um monte de carniça apodrecendo. Não havia vermes, insetos ou outras coisas. Apenas cadáveres de animais e o que havia restado de Marv e Jackson. Em torno, enfiados pela metade na terra negra estavam as crianças dessas criaturas. Tinham pouco mais de um metro as maiores enquanto as menores tinham não mais que trinta centímetros. Eram plantas que estavam nos usando como adubo. Plantas que andavam. Que nos viam como um pedaço de comida. Pelo menos pensavam que eu estava morto. Seria possível fugir a noite, se dormissem. E porque não dormiriam, se as plantas amam o sol?
Que meu sangue não me falhe e consiga suportar as longas horas até o por do sol nessa pilha de imundice. Que nosso furor não seja pequeno e essas aberrações paguem cada morte.
Assim que voltasse iria até seu pai, senhor do condado de Maern iriam organizar o extermínio desses seres. E contar ao sacerdote a razão da proibição de se regar o solo das florestas com o sangue dos combates. Plantar uma má semente gera uma má árvore. Nas reciprocidades da Língua é esse o fruto de plantar morte no solo da vida.
E os hereges que moram nas cidades desdenham da Língua com sua fé baseada na opressão da família pelo patriarca e no castigo do corpo para alcançar graças.
Tem que ter sido um desses infiéis que começou tudo matando algum ladrão dentro da floresta e desrespeitando o tabu. Estúpidos.
Os monstrinhos tinham parado de se mover e fazer estalos estranhos. O sol se pôs a pelo menos uma hora. Era agora. Levantei silenciosamente e m esgueirei para fora. Não me atrevi a acender uma tocha durante nenhum momento do caminho. Durante a longa e angustiante viagem pela floresta sombria ninguém, me incomodou, mas tampouco ouvi o piar das corujas ou o uivar dos lobos. Ou essas aberrações estavam dizimando os animais da floresta para de alimentar ou eles estavam tão horrorizados quanto eu. Em dois dias no máximo iríamos com tochas de freixo e carvalho purificar aquele lugar. E se as aberrações que oram geradas não caírem diante da fumaça purificadora, cairiam debaixo de machados. E esses malditos urbanos infiéis seriam avisados pela última vez sobre obedecerem as leis.
PS
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