Perder vale a pena
novembro 27th, 2009 by cochise
Luke Skywalker é um pentelho que vem te azucrinando há tempos. Diante da oportunidade de matá-lo você desiste.
O time de trenó da Jamaica cruza a linha de chegada com o trenó sobre os ombros depois de um acidente fazendo o pior tempo do campeonato.
O maratonista é empurrado por um maluco fantasiado e por isso chega em segundo lugar ao invés de primeiro.
Perder não é necessariamente ruim. Algumas histórias simplesmente não tem graça se o protagonista não perder. É o caso de Otelo por exemplo. Retire o assassinato de Desdêmona e não sobra nada.
Ganhar muitas vezes não está relacionado ao mundo material. No fim de The Outsiders de Susan E. Hilton dois dos personagens mais carismáticos, maiores amigos do protagonista morrem. O personagem mais odioso da história escapa impune e apesar disso o livro tem um final feliz.
Pegue aquele surrado exemplar de Mago a Ascensão, 2ª edição que está pegando poeira na prateleira e leia o conto que é contado no início dos capítulos. É a mesma situação de The Outsiders.
Os jogadores não vão ficar satisfeitos se não houver um sucesso na história, mas isso não é necessariamente uma vitória para os personagens.
Um exemplo clássico disso é o sacrifício heroico. Esse é amplamente difundido em todos jogos. Existem poderes de Paladinos e Clérigos que propiciam vantagens mecânicas através disso. O sacrifício do personagem é um sucesso para a história. Assim como ele aceitar a derrota ou renunciar ao prêmio que passou cinco sessões buscando. Ou descobrir que não existe meio de ressuscitar sua falecida esposa.
Apenas na derrota dos protagonistas é possível desenvolver certos lados dos personagens. Como ele lida com a frustração. O que pode fazer com que ele decida abandonar sua jornada. O que ele é capaz de aprender com a derrota.
Certa vez montei uma pequena aventura para um jogador. Devia durar uma ou duas horas. Nela o rico e bem sucedido empresário descobre que ele é um monstro que come pessoas e que a empresa é apenas uma fachada para capturar pessoas. Que ele é parte de toda uma família de monstros assim. Descobre que está sendo perseguido por fantasmas de suas vítimas e por um grupo de caçadores. Inevitavelmente a história terminaria com a morte do jogador. A narrei três vezes para três pessoas distintas (meio pleonasmo isso). Todas tiverem finais diferentes. Todas lidaram com a derrota objetiva da aventura de forma diferente. Cada um diante disso se esforçou não em fazer o personagem ganhar, mas em chegar ao sucesso da história, o que para cada um foi uma coisa diferente.
Isso transposto para campanhas de longo prazo quer dizer que a derrota não precisa ser necessariamente a morte. Forçar um pacifista a matar alguém é uma derrota para o personagem. Destruir seu objeto de poder é uma derrota. Fazê-lo abandonar a obra de sua vida. Tudo isso são coisas que não precisam ser atribulações antes do desfecho onde tudo se resolve. Pode ser o desfecho.
Como você agiria se soubesse que a garotinha de 3 anos que resgatou do laboratório tecnocrata é que está causando os assassinatos que está investigando? E não, não há o que fazer, a garota é uma widderslainte (Nephandi que reincarna com a alma já corrompida) e os tecnos que você matou mês passado estavam fazendo o que precisava ser feito. Mandar flores e condolências para as famílias vai ajudar você a se olhar no espelho? E saber que é um espírito corrupto vai fazer com que se sinta menos monstruoso ao matar um bebê?
Não há o que fazer depois disso. O jogo acabou. As escolhas dos jogadores os levaram a construir o melhor fracasso possível e isso não quer dizer que os personagens estejam com a alma limpa, aliviados e sorridentes passeando em Paris enquanto esperam a próxima sessão.
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dezembro 6th, 2009 at 6:38 pm
O desafio de fazer perdedores felizes é uma arte. Na minha última campanha terminada, consegui fazer com que a campanha terminasse com todos os sonhos dos personagens sendo frustrados.
Eles tinham sido vítimas de um monstro que os aprisionou nos desejos profundos deles coletivamente, oq me possibilitou mestrar o sucesso deles de maneira gloriosa.
Depois de vencerem o monstro perceberam que a maioria percebeu que o q eles mais buscavam não era o q realmente precisava. O fim n foi feliz, mas foi o ideal.