Tudo farinha do mesmo saco

November 25th, 2009 by Cochise César

A tão famosa guerra de edições é uma piada.

Se alguém me disser o que realmente mudou de uma edição para outra de D&D agradeço, mas a  resposta até onde eu sei é nada.

Claro que mudaram as regras. Claro que os cenários oficiais passaram pro transformações. Mas o que realmente mudou? Da primeira à quarta edição é um jogo sobre um grupo de combatentes que busca algum ganho pessoal como fama, dinheiro e poder. Para conseguir isso faz o que todo grupo de combatentes faz. Combate. Desde a primeira edição até hoje D&D continua sendo D&D e fazendo a alegria de seus fãs.

Esse é o estilo de jogo Super Mário World.Existe um adversário, você passa por provações até chegar nele,algumas físicas como apertar os botões rápido sem errar, outros mentais como decifrar um quebra cabeça. No fim das contas ou você ganha ou perde, podendo ganhar melhor ou pior. Conseguir a pontuação perfect pode exigir que vá varias vezes ao mesmo mapa e coisas do gênero.

Se Romeu e Julieta fosse D&D os personagens teriam roubado taças de ouro, fugido e se tornariam nômades aventureiros. Se Hamlet fosse D&D uma espada vorpal resolveria o problema.

Esse é o tipo de aventura comum dos videogames, que é puramente objetiva. Onde o personagem afeta o cenário, mas nada afeta o personagem. Ele é uma máquina de ganhar, assim como o Mário do videogame.

Podemos ver isso nos MMORPGS também. O personagem faz dezenas de quests e continua tão vazio quanto antes.

Mas agora acompanha comigo. Qual a diferença entre D&D e Burning Wells. Ou Shadowrun. Ou Warhammer. Ou Savage Worlds. Ou Hot War. Ou a maioria esmagadora dos RPGs lançados.

Nenhuma, se você despir o jogo de coisas completamente acessórias como sistemas e gêneros.

O jogo só começa a mudar quando aspectos subjetivos fazem com que haja história. Qualquer pessoa sensata não chegaria ao final trágico de Othelo. Em uma partida de RPG a máquina de ganhar chamada jogador iria tentar sempre o final Good + do jogo.

Hoje em dia não consigo deixar de ver na maioria dos jogos existentes uma semelhança brutal. As regras e ambientações mudam, mas os jogos continuam exatamente a mesma coisa. Por isso é possível fazer adaptações. Adapta-se cenário X para regra Y e está tudo bem, Ninguém vai mesmo se preocupar em fazer algo mais que um jogo Super Mário World.

Eu sou absolutamente fã de alguns cenários por causa de suas possibilidades. Por exemplo Shadowrun, onde o mundo acabou em 24 de dezembro de 2011, (fim do calendário Maia) e você sobreviveu ao processo. Um jogo sobre ideologias, realidades, vidas, que simplesmente se desmancharam no ar. No entanto a solução padrão é pegar um samurai urbano e explodir cabeças pelo preço mais alto.

Existem alguns (poucos) jogos que são praticamente injogáveis no estilo Super Mário World de ser. Outros são jogáveis mas seus livros desaconselham essa estratégia fortemente. Outros como Shadowrun simplesmente não abordam a questão de como deve ser jogado.

Independente do cenário ou sistema usado o que tenho visto é reduzir tudo a um denominador comum. Um denominador baixo que nos faz perder exatamente aquilo que dá gosto às histórias. Nem mesmo a ambição mesquinha dos personagens-máquinas-de-ganhar é a ambição autêntica de um Macbeth.

Se o lado subjetivo das histórias não for levado em consideração no planejamento de cenários, sistemas e aventuras a única coisa que posso dizer de um jogo é “tudo farinha do mesmo saco”.

A revolução que espero não é mudar o número ou tipo dos dados.

Gostou do texto? Então me paga um café.

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14 Responses to “Tudo farinha do mesmo saco”

  1. Daniel Anand Says:

    O que você está jogando atualmente?

  2. cochise Says:

    Atualmente infelizmente nada.
    Mudei de cidade e vou mudar de novo em breve.
    Sabia disso e não valia a pena procurar um grupo aqui. Agora a partir de janeiro que vu estar em definitivo em um lugar tento reunir um grupo que aceite jogar coo o antigo jogava. Menos preocupado em ganhar o jogo e mais em contar a historia.
    Ao preparar uma aventura costumo criar um antagonista para cada jogador e o combate entre eles quase nunca é físico. Ou só físico.
    Por isso gosto especialmente de Nephandis e sindicalistas, que podem apanhar a vontade. Os planos que eles criaram são mais longevos que eles. De inimigos que tem como única finalidade despertar uma dúvida no coração do personagem.

    O desafio nunca é somente ao poder do personagem e sim ao personagem.

  3. James Says:

    Rapaz, essa foi uma pessima analize voce nao entende nada memso do que é RPG ^^

  4. Marcelo Says:

    Foi a melhor analise de RPG que ja li. Alias, de entretenimento em geral em um bom tempo. Qualquer entretenimento de massa tem a mesma premissa, pq a massa leva porrada de todo lado (violencia, imposto, temporal, programa do didi) que ganhar no Good+ EX é preciso, e o mercado do ramo, vivendo disso, entrega o que pedem.

  5. Daniel Anand Says:

    Eu pergunto porque não é nada fácil achar um grupo com jogadores que consigam todo esse foco na história e aspectos subjetivos. E não é fácil porque dá trabalho. Não nego que pode ser uma experiência muito bacana, mas precisa de mais envolvimento e dedicação, coisa que é difícil convencer a dar para o que muitos julgam como um passatempo.

    Por isso que os jogos mais simples conseguem ser mais bem sucedidos, principalmente no aspecto de público. Mas não creio que só o fato de ser algo mais para a massa faz algo ruim, pelo contrário. Acho qualquer tipo de elitização do RPG um engano, porque acho que é um hobby muito acessível.

    De qualquer maneira, torço para que encontre outros jogadores que pensem como você em sua cidade nova.

  6. cochise Says:

    Obrigado. Estou sondando algumas pessoas por lá já…
    E ,sSim, fácil não é. Mas diria que tanto quanto preparar um encontro para personagens de 7º nível de D&D3e (ouvi falar que ficou mais fácil na quarta edição)
    Aliás esse é assunto para um post futuro…
    Quanto à elitização…Acho que já ocorre uma certa elitização financeira pr causa das montanhas de suplementos.
    Como disse mais acima, é mais uma questão de mudar a maneira de pensar do que realmente ter muito mais trabalho ou ser uma fina arte acessível somente a alguns iniciados.

  7. RPG Brasil - Tudo farinha do mesmo saco Says:

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  8. Ricardo Peraça Says:

    Concordo plenamente com o Cochise! Nem tenho mais o que falar. Mas gostaria de discutir algumas coisas com você depois (acho que a comunidade rpg indie seria um bom lugar).

  9. cochise Says:

    A vontade, amigo.
    Pode mandar o início das discussões pelo grupo que na medida que o meu tempo escasso de fim de período permitir eu participo do debate.

  10. will figueiredo Says:

    =D
    Algum dia eu te pago um café! Se quiser com cuscus e tapioca! =D

    Boa analise! Uma das coisas que causam dano agravado em mim como narrador é o fato de sempre meus jogadores ficarem atrelados a essa nescessidade de seguir no automatico End Game +. O pior mesmo é viver em uma cidade aonde os jogadores são habituados ao mesmo feijão com arroz de sempre, os mesmos esteriotipos e temas de jogos como Vampiro, lobisomen, mago + as novidades de produtos mainstream de sempre como o D&D 4ed. Quando eu li o RPG do mouse guard fiquei emocionado e apaixonado pela simplicidade do sistema e principalmente pelos guias de interpretação (Objetivo, instinto e etc…) se você quiser seguir perfeito é premiado, se você não quiser segui-los tudo bem… Mas qual seria a graça?
    Apresentei o material ao publico alvo e fui educadamente ignorado. Agora o meu projeto é apresentar o jogo para um grupo de crianças carentes de um projeto social daqui de meu trabalho. Talvez tenha um feedback melhor. E caso positivo esqueço a nerdalhada velhaca acostumada as mesmas formulas mastigadinahs de sempre!
    Um abraço e boa sorte em seus projetos.

  11. cochise Says:

    O maior problema do RPG é o público. tirando isso é uma coisa fantástica.
    Em Divinópolis eu tentei diversificar, mas sempre acabava de volta no meu grupo de 4 narradores que se alternam nessa função.
    Procurar jogadores que não conheçam o hobby (sejam viciados em uma única forma de jogo) é realmente uma saída inteligente.

  12. Bárbara Says:

    Eu concordo porque sou a favor do RPG como arte, como experiência de desenvolvimento subjetivo e como um exercício da vivência em grupo.

    Se eu quisesse sair matando todo mundo eu ligava meu N64 no Zelda ou no 007 Contra Goldeneye e atirava pra todos os lados. Não me daria ao trabalho de comprar livros caros e pesados, juntar uma turma e perder tempo imaginando batalhas com arcos e flechas e bolas de fogo voando e vorpais decapitando 3d6 zumbis. É uma questão de praticidade mesmo.

  13. Daniel Anand Says:

    Eu faço as duas coisas e são experiências bem diferentes. Não dá pra comprar uma partida de videogame com RPG, mesmo que em ambos você esteja explorando uma dungeon infestada de monstros. Decapitar 3d6 zumbies pode ser super divertido!

    Mas, assim o Tio Nitro, acho que existe espaço também para o "RPG Arte", embora nossa praia seja mais o "RPG Pancadaria".

  14. Danielfo Says:

    É por isso que acho uma bobagem esta onda old school, não vejo uma escola nova surgir para alguém chamar a outra de velha. Todas as edições de D&D forçam a interpretação terminar em pancadaria, o role-play restringe-se a comprar itens, saber onde os monstros estão e dividir a recompensa.

    Veja o caso do XP, matar monstro é tudo e relegado ao nono plano ficam as regras de premiação por aventura. Eu mesmo, já mudei muita coisa no meu jogo e xp por criatura não se torna a melhor fonte de experiência. Isso acaba com aventuras em forma de caçada de bichos.

    Acrescento ainda Cochise o próprio Senhor dos Anéis, muitas cenas dali NUNCA ocorreriam no RPG. Entregar as armas antes de entrar no salão de Denethor?
    Gandalf ter um embate verbal contra Saruman, O Branco em Isengard? (nem no filme fizeram isto)
    Deixar escapar Grima para a Orthanc?
    JAMAIS! Espadas em punhos e bola de fogo nas mãos.

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