Terror, horror, poder, sustos e outros pout pourri
agosto 9th, 2010 by cochise
Ravenloft é um bom cenário. É assustador, opressivo e amedrontador.
Mas tem um pequeno problema chamado D&D. Não que D&D seja per si ruim, mas mal usado.
Ravenloft é Greyhawk num espelho negro. É tão ou mais maniqueista que Grayhawk para começar. A diferença é que enquanto Greyhawk é um mundo predominantemente bom Ravenloft é absolutamente mau. Se em Greyhawk um personagem maligno nível 1 morre antes de ter tempo de fazer seu primeiro massacre em Ravenloft é o contrário. Um paladino perdido em Ravenloft que porventura faça um Turn Evil vai ver a terra borbulhar ao seu redor, porque o plano é maligno, as brumas são malignas, os governantes são malignos. Não existe espaço para o bem sobreviver em Ravenloft. E boa parte da graça do cenário está nisso.
A corrupção é prima irmã do XP no semipalno de terror. Lembro que na terceira edição não havia antagonistas de ND acima de 15, porque se esperava que quando você chegasse ao nível dez das duas uma. Você estaria corrompido ou morto. Essa é, na minha simplória opinião, a maior parte da graça da coisa. É uma luta desesperada contra coisas infinitamente mais poderosas que seu grupo. É uma luta desesperada contra a corrupção dos personagens.
O Terror em Ravenloft não é aquela coisa ataque-zumbi-te-mato-sem-aviso. O terror gótico não é horror gótico. O objetivo em Drácula não é assustar o leitor no sentido Resident Evil, mas no sentido Silent Hill. Drácula tem poder o bastante para matar Van Helssing dez vezes. O terror gótico é um terror romântico. Tem a ver com corrupção, sedução, sutileza.
Mas se o Van Helsing ao invés de ser o do livro do Drácula é o do filme Van Helsing não há possibilidade de sedução e corrupção. O filme fala de um brucutu fodão de óculos escuros. Como eu vou seduzir alguém que tem chance numa briga comigo? Metade dos diálogos em que o vilão bambeia os princípios dos heróis no terror gótico só existem porque os heróis tem plena consciência que levantar a mão é suicídio.
Se em Greyhawk o bem quer matar o mau, em Ravenloft o mau quer corromper o bem. O mau não quer mártires.
Bem. Esta é a minha posição. Ravenloft tem pouco a ver com sustos. Tem pouco a ver com níveis altos e tem nada a ver com combates. O horror é a especialidade de Tarantino, não de Bram Stocker. Este prefere o terror gótico, que não pode ser separado do romantismo.
O objetivo das brumas não é matar o paladino, mas fazê-lo cair. E como o bem é muito mais truculento que o mal (existe uma honrosa exceção para um dos creeds de Hunter the Reckoning) isso exige que o bem serja mais fraco.
Bem… isso é o pressuposto para a crítica a D&D que abre o artigo.
1 – Excesso de poder
Os personagens de D&D são facotes que apanham para ratazanas. Isso é bom. Mas exatamente por isso os jogadores acabam encarando o nível 4 como starting e não como ending. Nível um em Ravenloft é adequadíssimo.
2 – XP
Dois pontos. O excesso de XP que impede histórias longas, já que os personagens acabam ficando mais poderosos do que deviam e a origem dele, combates. O terror gótico não precisa do gore. O combate é sempre desesperado e assustador. Não é coisa para acontecer com encontro aleatório entre lugar X e Y.
3 – Lordes
Os lordes são magníficos. Prisioneiros em seu próprio reino. Entediados além da morte. Sempre que aparece um personagem mais poderoso ele vai atrás. Mas eles não vão querer matar esse povo logo. Acabaria com a graça. Talvez os PJ até fomentem intrigas palacianas e competições de quem consegue corrompê-los. Mas isso quer dizer que o personagem mais fodão da campanha tem 475 milhões de poderes para não serem usados. O que é meio broxante. Mas faz parte das escolhas em se usar um sistema focado para combate em um cenário romântico em que o combate é subordinado a outras coisas e não suborndina as coisas.
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